Da terra de Piatã para a sua xícara
Uma história de família, café e Chapada Diamantina — contada por quem vive isso todos os dias.
Do pé de café à sua xícara
Antes de existir a Cotidiano Cafés Especiais, já existia uma família que acordava cedo para cuidar do café nas montanhas de Piatã, na Chapada Diamantina.
Sou o Urias Santos, fundador da Cotidiano Cafés Especiais. Meu pai, Anonivaldo, iniciou sua trajetória na cafeicultura há mais de 30 anos. Mas, na verdade, nossa história com o café começou ainda antes dele. Meus avós já cultivavam café em pequenas propriedades, em uma época em que a produção era simples, feita quase sempre para o consumo da própria família. O que sobrava era vendido para complementar a renda.
Naquele tempo, Piatã ainda não era conhecida nacionalmente pelos cafés especiais. A cidade ainda não ocupava o lugar de destaque que hoje conquistou entre as regiões produtoras dos melhores cafés do Brasil…
Meu pai iniciou o plantio em duas propriedades da família: a Chácara Torrado e a Fazenda Machado, que hoje é nossa principal área de produção. E eu, como não poderia ser diferente, cresci acompanhando toda essa rotina. Desde criança participei da colheita, da secagem, do beneficiamento e das tarefas da lavoura. O café sempre esteve presente na minha vida, do plantio até a xícara.
Durante muitos anos, o café fazia parte do meu cotidiano, mas eu ainda não compreendia totalmente sua importância. Não apenas para a nossa família, mas para centenas de produtores que construíram a história de Piatã.
Em 2014, mudei-me para Vitória da Conquista para estudar. Ingressei no curso de Biotecnologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e carregava comigo um grande sonho: empreender e, de alguma forma, unir isso à minha profissão.
Na faculdade, eu sempre levava alguns pacotes de café de Piatã para presentear amigos, vender ou simplesmente compartilhar um pouco da nossa terra. A reação era quase sempre a mesma: as pessoas se encantavam com o sabor e a qualidade daqueles cafés. Eu aproveitava cada oportunidade para falar sobre Piatã e sobre os cafés que, ano após ano, eram reconhecidos entre os melhores do Brasil.
Muitas vezes me chamava a atenção o fato de que muita gente conhecia a fama dos cafés da Chapada Diamantina, mas não conhecia Piatã, a cidade de onde grande parte desses cafés extraordinários realmente vinha.
Foi em 2019, já no final da graduação, que descobri a possibilidade de vender café pela internet por meio dos marketplaces. No início, era apenas uma forma de gerar uma renda extra e levar os cafés de Piatã para pessoas que talvez nunca tivessem ouvido falar da nossa cidade.
De maneira despretensiosa, abri uma pequena loja online e comecei vendendo os cafés torrados e moídos produzidos em nossa propriedade, ainda sem marca própria e sem rótulo elaborado. Aos poucos, passei também a incluir cafés de outros produtores da região, percebendo que havia espaço para mostrar a diversidade e a qualidade da produção de Piatã.
Depois de formado, participei de outros empreendimentos e, por um período, deixei o café um pouco em segundo plano. Ainda assim, ele nunca saiu da minha vida. Continuei vendendo pequenas quantidades pela internet e ajudando meu pai na comercialização do café verde da nossa propriedade.
Algum tempo depois, mudei-me para Barreiras, onde passei a atuar profissionalmente em uma empresa de biológicos voltada para o agronegócio. E, como sempre acontecia, levei comigo os cafés de Piatã e a história da nossa cidade.
Foi ali que algo começou a fazer ainda mais sentido para mim. Trabalhar com biotecnologia aplicada ao agro me fez enxergar, de forma muito mais clara, o potencial de unir minha formação acadêmica ao universo do café. Quanto mais eu aprendia sobre microbiologia, fermentações, controle de qualidade, processos produtivos e inovação no campo, mais percebia que esses conhecimentos poderiam contribuir diretamente para a produção de cafés de alta qualidade.
Sem perceber, eu também já estava construindo um negócio. Apresentar os cafés de Piatã, contar a história dos produtores e falar da nossa cidade era algo que me dava prazer. Não era uma estratégia de marketing; era algo natural, parte do meu cotidiano. Parecia que, de alguma forma, tudo me levava de volta ao café.
Nesse período, as vendas online começaram a crescer, principalmente com a ajuda de um grande amigo, Bernardo, que cuidava da operação em Piatã enquanto eu estava em Barreiras.
Apesar de gostar muito da profissão que exercia, sentia que faltava algo. Eu queria unir o útil ao agradável: minha formação em Biotecnologia, minha paixão pelo café e o orgulho que sempre senti por Piatã.
Foi então que decidi retornar à minha cidade.
Ao voltar, passei a aplicar os conhecimentos adquiridos ao longo da graduação e da experiência no agronegócio em todas as etapas do pós-colheita do café. Controle de qualidade, monitoramento da secagem, fermentações, classificação de lotes, padronização, boas práticas de processamento e adequações regulatórias passaram a fazer parte do trabalho que desenvolvemos diariamente.
Hoje, além de trabalhar ao lado do meu pai, também colaboro com outros produtores e parceiros da região, contribuindo para que cada lote expresse o melhor do seu potencial até chegar à xícara do consumidor.
E foi assim que nasceu a Cotidiano Cafés Especiais.
Há mais de seis anos, a Cotidiano vem levando os cafés de Piatã para todos os estados do Brasil e também para alguns destinos internacionais. Ao longo desse caminho, foram milhares de pacotes enviados, centenas de clientes conquistados e muitas amizades construídas através do café.
A Cotidiano surgiu não apenas como uma marca para comercializar cafés de Piatã, mas como uma ponte entre os produtores da nossa região e as pessoas que valorizam cafés especiais. Nosso propósito é dar visibilidade ao trabalho de cada produtor, que muitas vezes acaba escondido quando o café deixa nossa cidade e passa por diferentes etapas da cadeia de comercialização.
Também queremos promover o turismo, a cultura e as belezas de Piatã, uma cidade que encanta não apenas pelos cafés, mas pelas paisagens, pelas montanhas e, principalmente, pelo seu povo acolhedor.
Quem conhece Piatã costuma levar consigo muito mais do que um bom café. Leva uma história, uma origem e um lugar que tem algo difícil de explicar e fácil de sentir.
Essa é a nossa história. E esperamos que, a cada xícara, ela também faça parte da sua.
Quem cultiva o café que chega até você
Trabalhamos lado a lado com pequenos produtores da Chapada Diamantina, região que, em outubro de 2024, recebeu o selo de Denominação de Origem — o primeiro da Bahia. A mais de 1.300 metros de altitude, entre noites frias e dias amenos, nasce um dos terroirs mais especiais do Brasil para o café arábica.
Um desses parceiros é a Chácara Baixa Funda, propriedade familiar a 1.340m de altitude, em Piatã, onde a colheita é seletiva e manual e a secagem segue uma tradição que passa de pai para filho — a mesma que também está na nossa história. O resultado é um café encorpado, com doçura de rapadura e mel, e notas que lembram frutas vermelhas e chocolate.
O cuidado aparece na xícara: são cafés que costumam pontuar acima de 80 pontos na escala da Specialty Coffee Association, a marca oficial que separa um café comum de um café especial. Para nós, cada compra de um parceiro como esse é também uma forma de gratidão — valorizar quem planta é, no fim, cuidar de quem escolhe o nosso café todos os dias.
Café Rigno, uma tradição de mais de 40 anos
O Café Rigno nasceu em Piatã há mais de 40 anos, pelas mãos do patriarca Antônio Rigno — que costuma dizer que nasceu debaixo do pé de café. O que começou como produção vendida a granel se tornou uma das marcas mais premiadas do Brasil, cultivada em três fazendas da família — Tijuco, Ouro Verde e São Judas Tadeu —, todas acima de 1.300 metros de altitude, em Piatã.
É um blend dos melhores grãos arábica dessas fazendas, colhidos manualmente e secados de forma suspensa para preservar aroma e doçura. O cuidado rendeu reconhecimento: quatro vezes eleito o melhor café do Brasil pelo Cup of Excellence — em 2009, 2014, 2015 e 2022 —, prêmio que carrega a mesma dedicação artesanal que também guia o nosso trabalho na Cotidiano.
Hoje, boa parte da produção do Café Rigno vai para paladares no Japão, na Austrália e no Canadá — prova de que o que se planta em Piatã carrega orgulho muito além da Chapada Diamantina. Para nós, ter esse café como parceiro é uma forma de mostrar que pequenas fazendas de família podem, sim, competir com os melhores do mundo.